Domingo, Outubro 18, 2009

Gorda

Tony tem uma carreira promissora em sua firma mas vive entre um e outro relacionamento desastroso. Ele se depara com Helena, uma bibliotecária extrovertida, inteligente, com lindos cabelos negros, risada charmosa e uma silhueta fora dos padrões estéticos convencionais, com seus 100 e poucos quilos.

Os dois personagens, vividos por Michel Bercovitch e pela pernanbucana Fabiana Karla, em boas interpretações, iniciam um tórrido romance e se descobrem cada vez mais apaixonados. Helena, de bem com si mesma, se entrega por completo, mas Tony precisa superar seu próprio preconceito e decidir o que mais importa em sua vida: a mulher que ama ou a aceitação de seus colegas do escritório.

No espetáculo dirigido pelo argentino Daniel Veronese, a trama - escrita pelo dramaturgo norte-americano Neil LaBute - leva o público desde a gargalhada até a comoção. O enredo mescla situações cômicas e escrachadas com cenas onde os atores precisam aguçar a concentração para revelar traumas de seus personagens, mesmo sob a descabida risada de uma parte da platéia.

A peça conta ainda com Flávia Rubim no papel de Joana e Mouhamed Harfouch como Caco, ambos colegas e (pretensos) amigos de Tony, caricaturas de uma menina mimada e perversa e de um adulto-moleque que não mede esforços na desmoralização de seus convivas.

"Gorda" pode ser confundido com um espetáculo de humor escrachado, principalmente pela fama televisiva de sua atriz principal no humor besteirol. Muitas pessoas provavelmente vão ao teatro com esta expectativa e terminam perdendo a crítica refinada da peça ao preconceito incrustado na sociedade e às correntes que ligam as pessoas às opiniões alheias. É uma comédia dramática que vale à pena conferir.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Eme, esse, ene.

A noite estava calma. O outono já se fazia sentir na cidade e, apesar do mormaço quente, o céu ficou nublado durante todo o dia. Com o pôr do sol, o calor foi diminuindo e um vento leve entrava pela janela de seu apartamento. Cecília estava sentada no sofá, com o laptop no colo, as pernas cruzadas e apoiadas na cadeira virada de lado para que o encosto não ficasse na frente da TV. Nem olhava para a televisão enquanto apagava seus emails que falavam de peças que ela não iria assistir, de shows onde não iria dançar e de pessoas que ela não queria saber. De repente, uma janela apareceu na sua tela, com o rosto sorridente da irmã na foto tirada quando tinha 6 anos e a frase que ela sempre escrevia: "olah pessoa". Tinham começado a se tratar como "pessoa" quando eram adolescentes e até hoje tinham este código. Não lembrava como aquilo tinha começado, mas se sentia próxima à irmã quando ela lhe chamava assim. "Oi pessoa!", respondeu. "e aih, jah foi ve meu pai?". "Ainda não, Bia. Estou um pouco confusa com tudo o que aconeteceu.". Já tinha desistido de corrigir a irmã nas conversas virtuais, mas sempre se sentia um pouco incomodada com o jeito dela escrever. E, não fazia muito, ela também costumava enxugar suas conversas na internet, até que mandou um email com um "td bem" para o chefe, gerando algumas risadas na reunião semanal. Decidiu radizcalizar e passou a escrever todo e qualquer texto que digitava com a gramática de baixo do braço. "imagino...". Beatriz deixou a cabeça cair pra trás e se apoiar no encosto do sofá por alguns segundos. Não queria continuar aquela conversa. "Como estão as cosias por aí?", mudou de assunto. "normal... daniel tah no quarto dele, minha mae no dela e eu to aki na sala". "Mas está tudo bem?". A irmã continuou: "ih, ciça... teve o maior quebra pau aki hj. estou ficando cansada disso.". Nem me fale, pensou Cecília. Ela sabia que o clima na casa de sua mãe não estava bom, mas não sabia o que poderia fazer para mudar aquilo. Na verdade, tentava se convencer de que não podia fazer nada a respeito, mas no fundo sentia-se incomodada por apenas observar o processo de desmantelação de sua casa. Jogava a culpa em seu pai, e sempre falava com a mãe e com a irmã que tudo aquilo havia começado por causa da separação. Queria realmente acreditar naquilo e esquecer do fato de que, na verdade, ela havia sido a primeira a fugir da situação, indo morar com a avô com a desculpa de ter um ambiente mais tranquilo para estudar. Pensou em aconselhar a irmã a sair de casa, quem sabe vir morar com ela, mas no fundo as duas sabiam que temeriam por sua mãe se Beatriz saisse de casa. "mas deixa isso pra lah... a gente vai no hospital sabado de manha com minha tia. nao quer vir?". Cecília respirou fundo. Sentiu um rápido calafrio e olhou para o violão encostado na parede. "Pode ser". Marcaram o horário e ainda conversaram sobre trabalho, sobre namorados, sobre o filho da prima que havia acabado de nascer e sobre o jantar, antes de se despedirem. Cecília fechou o laptop, encostou novamente a cabeça no sofá e deixou uma lágrima rolar pelo rosto. Ela iria encontrá-lo no sábado.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Novo texto: Eu te amo

Sábado, Janeiro 05, 2008

Mais um conto: Cecília.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Novo texto:
Final da Primavera (no Blog da Gente).

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Estou escrevendo no blog DA GENTE... PRA GENTE!
Abraços!
Tiago

Domingo, Outubro 21, 2007

A retratista

Chegou com pressa, jogou-se no banco, recolheu uma das pernas e se sentou em cima. Abriu a bolsa e retirou seu caderno. Ela o abriu automaticamente, na página marcada pelo lápis. Sua ansiedade, sua pressa, seu aparente quase-desespero, tudo culminava naquele momento. Só então respirou fundo. Não olhava o mundo a sua volta simplesmente porque ele não existia até aquele momento: seu caderno aberto sobre a perna e o lápis em uma das mãos; com o corpo apoiado sobre o braço e a página totalmente em branco à sua frente, ela estava pronta. Olhou em volta e tudo começou a tomar forma: malas, lanchonete, balcão de passagens, o relógio, ônibus, lixeiras e as pessoas. Deu-se conta que a rodoviária estava movimentada e que aquele era o cenário perfeito: a espera, o cansaço, o calor, tudo parecia lhe favorecer, tornando a vida preguiçosa e lenta. Voltara ao mundo apenas por alguns instantes, para uma busca ávida, inquieta, porém rápida. Seus olhos percorreram as filas de embarque à sua direita, as pessoas em pé no balcão à esquerda e os bancos à frente até que ela fixou o olhar. Toda a sensação de inquietude pareceu desaparecer e o lápis tomou vida. Os traços, a princípio, não faziam sentido para os vizinhos no banco da rodoviária, que arriscavam um olhar curioso. Aos poucos o velho adormecido no banco, com a cabeça apoiada na mão, a pele enruguecida, cansada, a camisa de botão surrada, viajada, ia aparecendo, tomando forma em seu caderno. Enquanto o retrato do homem se desenhava, ela pensava na sua viagem.
Tinha um longo caminho pela frente. Seriam horas em que não poderia aliviar sua ansiedade empunhando seu lápis. Sentiu seu coração bater forte, sentiu-o disparar. Naquela manhã, quando leu o assunto do e-mail pedindo que ela viesse no fim de semana, já sabia de tudo que estaria escrito ali e achou que ficaria nervosa, que perderia o chão antes mesmo de chegar ao final da longa mensagem. Mas ela leu tudo, respirou fundo e foi descobrindo ao longo do dia que a sensação que começou a preenchê-la enquanto lia o e-mail era uma ansiedade do momento que se aproximava. Não era a sensação de medo que ela conhecia incomodamente. Medo que ela havia sentido muitas vezes, em situações não muito diferentes, e que sempre sucediam telefones, cartas ou conversas com aquela seriedade que ele exacerbou nas entrelinhas. Não que ela não estivesse envolvida, não que ele representasse menos na sua vida que as outras pessoas com quem ela havia se relacionado no passado. Aliás, desde que começou a sair com ele, teve a sensação de já ter visto aquele filme antes. Todas as pessoas com quem ela havia se identificado pareciam seguir um script, percorrer uma trilha aberta na mata: declarações, carinhos, liberdades e confissões que teimavam em acontecer sempre da mesma forma, na mesma ordem. Por alguns momentos sentiu-se incomodada por pensar assim, por comparar sua vida a um disco arranhado. Porém foram apenas alguns instantes. Ela sabia que aquela sequência de acontecimentos fora quebrada. Ela não havia desmoronado quando leu a mensagem. Ela até se esqueceu daquele correio durante o dia, no trabalho. Ora, ela conseguiu até trabalhar. Sim, estava triste. Gostava dele, afinal. Mas algo estava diferente naquela situação toda. Algo que não combinava com os outros términos que havia passado e com as semanas que os seguiam, desoladas, turvas, pesadas. E ela sabia o que era. Sabia que estava tranquila o suficiente para aceitar o pedido dele e passar o fim de semana na casa de seus pais para poderem conversar. Sabia que aquele fim de semana não seria fácil e que choraria com o que ele tinha para lhe falar. Mas, apesar da ansiedade, estava preparada. E aquela sensação de controle lhe confortava, lhe enchia de confiança. Respirou fundo e junto com o ar soltou lentamente os momentos que passara com ele, os beijos, os abraços, as brigas. Soltou tudo. Sentiu um espaço abrir-se em seu peito, um espaço que ela preencheria com o que quer que fosse: talvez até outra pessoa. De repente, o velho movimentou-se bruscamente e abriu os olhos. Olhou o relógio de metal no pulso, apanhou a sacola encardida e levantou-se pigarreando.
No caderno, ficaram faltando alguns detalhes: um traço da camisa amassada, as dobras dos dedos roliços, mas ele estava ali, com sua imagem impregnada de ansiedade e confiança. Em traços firmes, sisudos, perfeitos, estava imortalizado o velho recostado no encosto do banco, a mão sustentando o peso da cabeça, as roupas simples e o semblante cansado. Ela saiu de seu transe e voltou ao mundo. Olhou os ponteiros do grande relógio pendurado na parede. Tinha tempo. Olhou em volta e tudo começou a tomar forma: malas, lanchonete, balcão de passagens, o relógio, ônibus, lixeiras e as pessoas.